Prédio com fachada envidraçada pode ser 26% mais prejudicial ao meio ambiente, diz estudo da USP
Pesquisadora Rosilene Regolão Brugnera considerou diversas variáveis desde a construção até o fim da vida útil de edifícios em São Paulo, Manaus e Curitiba

Os grandes prédios corporativos com fachada envidraçada são até 26% mais prejudicais ao meio ambiente em comparação aos de arquitetura tradicional. Isso é o que concluiu uma pesquisadora da Universidade de São Paulo (SP) de São Carlos (SP) em um estudo detalhado sobre o consumo energético e o tempo de vida dos edifícios.

Em sua análise, Rosilene Regolão Brugnera considerou os materiais utilizados, o tamanho da janela, o tipo de vidro utilizado, ausência ou presença de dispositivo de sombreamento, e como as combinações influenciam.

“Todas as escolhas geram um impacto, então a ideia foi tentar mensurar e entender como elas refletem no desempenho do edifício e, assim, tentar disseminar o resultado para as pessoas tomarem caminhos mais conscientes”, disse.

A pesquisa desenvolvida no Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP analisou os edifícios em três diferentes climas brasileiros: São Paulo (clima intermediário), Manaus (clima quente) e Curitiba (clima frio).

Fachada envidraçada
Com janelas totalmente seladas e sistemas de condicionamento artificial funcionando durante todo o dia, esses edifícios são muito comuns em metrópoles brasileiras e até em cidades menores, como São Carlos.

“Esses edifícios normalmente têm plantas maiores que 900m², sem paredes internas, chamados de edifícios de planta livre, do inglês open plan offices”, explicou.

Segundo Rosilene, esse modelo é importado de outros países e se tornou popular no Brasil, mas não foi adaptado para a realidade climática do país.

Por isso, a pesquisadora fez um estudo comparativo entre dois modelos de fachadas: fachada cortina (totalmente envidraçada) e a tradicional (parede em alvenaria e esquadria com vidro ).

O estudo
Além da bibliografia já existente sobre o consumo energético e o tempo de vida dos edifícios, a pesquisadora também entrevistou pessoas que trabalham com projetos nessa área para conseguir chegar num modelo que atendesse as características de edifícios reais.

Para o cálculo e a comparação, foi considerado o tempo de vida útil médio de 60 anos para edifícios envidraçados. Em relação ao consumo de energia, Rosilene verificou que alguns itens fazem toda a diferença e muitas variáveis podem contribuir com o prejuízo ambiental.

“Usar a fachada cortina, em vez da tradicional, não utilizar sombreamento, utilizar vidro incolor em vez das outras opções, são algumas das coisas que contribuem para o aumento do consumo de energia. Também foi observado que no clima de Manaus, onde é muito mais quente, o impacto de medidas para reduzir o consumo de energia é menor”, explicou.

Segundo Rosilene, essa pesquisa foi pensada não só para os arquitetos, mas também para engenheiros e projetistas em geral.

“Eu também sou arquiteta, então essa pesquisa também veio das minhas necessidades. Qual o tipo de fachada que eu vou escolher para o meu edifício, qual o tipo de fachada que eu vou escolher”.

Outros vilões
Além do gasto energético com o ar condicionado, na fase de pré-uso, o prédio envidraçado também demonstra mais prejuízo ambiental.

O alumínio usado para a construção do edifício foi o material que apresentou o maior impacto ambiental. “A fase de uso tem maiores impactos, visto que considera 60 anos de vida útil do edifício, mas todo o material também contribui com o impacto”, disse.

Mesmo com todos os elementos que colaborem para tornar esses edifícios grande inimigos do meio ambiente, o maior responsável por isso continua sendo seu principal material: o vidro.

“Quando também consideramos o custo, as soluções que já apresentavam maior impacto ambiental também são as mais caras. Inclusive, gerando uma diferença muito clara entre a fachada tradicional e a fachada cortina”, explicou.

Conclusão
A alteração do tipo de fachada de tradicional para a envidraçada causou um aumento de até 26% no consumo do ar condicionado para Curitiba e São Paulo e de 15% para Manaus.

Na análise de desempenho ambiental, segundo Rosilene, a fase de uso da edificação foi responsável por cerca de 70% das emissões de CO2, não excluindo os impactos da fase de construção do edifício.

Todas as considerações da pesquisa, que teve a orientação da professora do IAU Karin Maria Chvatal, foram publicadas também na revista Ambiente Construído periódico científico da Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (ANTAC).