Obra requer planejamento, traz riscos, mas pode evitar desabastecimento no condomínio

Com os problemas de abastecimento de água se agravando, muitos condomínios têm buscado uma forma de se resguardar da falta desse insumo.

O poço artesiano pode ser uma opção para esses casos. Afinal, ninguém quer ficar refém do abastecimento – que está precário em diversas regiões – e não depender dos caminhões-pipa, que também podem faltar e cujos preços, estima-se, irão subir bastante.

Mas para Alexandre Furlan Braz, especialista em gestão ambiental e diretor do Instituto Muda, o poço artesiano não é o “plano B” ideal para condomínios.

“O poço artesiano não faz com que as pessoas usem água de maneira mais racional, que é o que o planeta precisa nesse momento. Para os condomínios, o melhor seria apostar na individualização dos hidrômetros, que faz com que cada um tenha o incentivo certo para economizar em sua unidade. Já pensando o condomínio como um todo, o ideal seria implantar um bom sistema de reuso da água”, argumenta.

Saiba mais sobre individualização de hidrômetros aqui
Conheça sistemas de reuso da água para condomínios

Mesmo não sendo o mais indicado na economia de água, muitos condomínios em locais onde o abastecimento está comprometido buscam informações sobre os poços artesianos.

Mas você conhece o passo a passo para que o seu condomínio tenha um? Veja abaixo:

Escolha da empresa: as empresas convidadas devem visitar o condomínio e realizar um estudo sobre a viabilidade do projeto. Depois disso, a empresa é escolhida e a obra deve ser aprovada em assembleia. Segundo as fontes consultadas, por se caracterizar como necessária ao condomínio, a obra pode ser aprovada pela maioria simples: metade mais um do total de presentes na reunião. (saiba mais sobre quóruns em assembleias)

Importante ressaltar que a empresa deve contar com um geólogo ou engenheiro de minas para executar o projeto do poço, e também deve seguir a norma NBR 12212 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para o setor.

Licença: Com o estudo em mãos, o condomínio pede uma outorga de perfuração na agência responsável por isso em seu estado. Nesse documento está expressa a vazão de água que o condomínio pode retirar do poço. Geralmente, a empresa que faz a perfuração se encarrega de ir atrás das licenças necessárias.

Perfuração: Já com a licença em mãos, a empresa faz a perfuração no solo. A obra dura, aproximadamente, 20 dias. Caso dê tudo certo, instala-se a bomba para retirar a água. Se não houver água no local, o condomínio deve pagar por outra perfuração.

Nova licença: A água do poço deve ser analisada e aprovada pela agência local para consumo – seja para beber ou não -, para que seja concedida a outorga de direito de uso do recuso hídrico. Caso isso não aconteça, o condomínio deve tratar a água até obter a licença.

Cadastro Viginância Sanitária: Para uso humano é necessário também providenciar o “Cadastro do Sistema/Solução Alternativa de Abastecimento de Água para Consumo Humano”, documento emitido pelo Departamento de Vigilância Sanitária estadual ou municipal, dependendo da localidade.

Manutenção: Anualmente, o condomínio deve fazer manutenção preventiva da bomba do poço, além de enviar amostra ao órgão responsável para averiguação. Caso a água seja potável, a análise deve ser feita a cada três meses.

Como se pode ver, não é um passo simples fazer um poço. É uma obra que deve demandar uma boa dose de planejamento do condomínio.

Veja abaixo alguns pontos a serem estudados antes de se optar pelo poço artesiano:

Alto investimento: Furar um poço artesiano no condomínio demanda bastante dinheiro. “Entre R$ 50 mil e R$ 100 mil, tudo pode acontecer”, argumenta Adauto Afonso, diretor da empresa Poços Hidromaster. A oscilação do preço se deve a possibilidade de não haver água onde a perfuração é feita. Nesse caso, o condomínio deve pagar pelo serviço já executado e por uma segunda perfuração.

Economia de dinheiro, não de água: Atualmente devemos focar esforços em usar a água de maneira mais responsável e racional. Geralmente os locais abastecidos por poços artesianos têm uma ideia de que a água ali ‘dura para sempre’, o que não é verdade. Por isso, o que acontece é apenas a economia na conta de água – acaba se pagando apenas o esgoto – e não um uso racional da água.

Demora: No estado de São Paulo o órgão responsável por dar a outorga para novos poços artesianos é o DAEE (Departamento de Água e Energia Elétrica). Devido à grande procura, os entrevistados apontaram que apenas essa licença pode demorar seis meses. Depois dessa, se der tudo certo, o poço é furado e a água começa a ser bombeada. Mas para que se possa utilizar essa água, a mesma precisa passar por um teste de potabilidade a cada três meses. Depois da primeira outorga de perfuração, ainda há a necessidade de mais uma, a de direito de uso dos recursos hídricos, que também pode demorar.

Sem garantias: após conseguir a outorga para perfurar o poço, mesmo que haja um estudo preliminar, pode ser que não haja água no poço. Ou que não haja vazão necessária para o condomínio. Ou que a água encontrada não seja de qualidade para consumo – e seja necessário investir em uma estação de tratamento. De qualquer forma, o condomínio deve pagar a empresa pela perfuração.

Sem outorga: Em locais onde há uma grande concentração de poços artesianos, o órgão competente pode não conceder a licença para o poço, para evitar a exaustão do recurso hídrico. Ou pode conceder o uso para uma vazão inferior à necessidade do condomínio.

Secamento do poço: Quando não há esse cuidado preventivo do órgão competente, o poço do condomínio pode secar. Nesse caso, o ideal é furar mais fundo e o mais longe possível do antigo poço.

Poço clandestino: Quem opta por perfurar um poço sem anuência do órgão fiscalizador fica a mercê de ver seu poço fechado em uma fiscalização. Nesse caso, fica a cargo do síndico a responsabilidade pela potabilidade da água – e, caso alguém venha a ter algum problema decorrente da ingestão de água inadequada para o consumo humano.

O que é um poço artesiano?

Mais profundo que os comuns, pode ter profundidade de 100 a 1.500 metros. Os poços comuns (também chamados cisternas ou cacimbas) dificilmente têm mais de 20 metros.
O artesiano tem vazão de água até mil vezes superior que o comum: 2 m3 (2 mil litros) em média. A vida útil fica por volta de 40 anos.
É perfurado com máquinas, por empresas especializadas. São necessários de 2 a 4 caminhões para a operação.
Para a perfuração, necessita-se de uma área de 7 metros de largura por 25 metros de comprimento.
O artesiano convencional não requer bombas, porque a água jorra. É revestido com tubos de aço, e requer um filtro especial.
Poços semi-artesianos: normalmente de profundidade menor que a do artesiano, não são jorrantes. Precisam de uma bomba para trazer a água.
É um investimento alto e de certo risco, já que em uma pequena porcentagem dos poços cavados não se encontra água.
Poços micro-artesianos: nome comercial para poços comuns (manuais) mais profundos, com até trinta metros.

Por quê traz economia?

Deve-se pesar os custos no caso de se necessitar uma bomba d’água (produto, manutenção e energia elétrica), e os custos adicionais para as instalações hidráulicas que ligarão o poço à rede do condomínio.
O custo de perfuração de um poço artesiano é alto, mas a longo prazo barateia os custos com a água: o condomínio terá sua própria fonte, desvinculando-se parcialmente da companhia de fornecimento local. Se o poço suprir totalmente as necessidades, paga-se à companhia apenas a taxa de esgoto.
Uma outra vantagem é a garantia do abastecimento durante racionamentos de água em épocas de maior consumo, como o verão principalmente em grandes condomínios. Desse modo, minimiza-se a necessidade de contratar carros-pipa.

Perigos e precauções

Existe uma probabilidade, embora pequena, de contratar uma empresa para perfurar o poço, e não encontrar água. Ainda assim, o condomínio terá de arcar com os custos da perfuração. Também há uma pequena possibilidade de o poço não ter um volume de água satisfatório.
Por outro lado, algumas das empresas perfuradoras desenvolvem contratos de risco: o solicitante só pagará pela água recebida. Caso não haja água no local, não perde nada. A empresa cobra pelo líquido fornecido, como se fosse uma companhia de água. Neste caso, o poço vale mais como uma garantia de abastecimento.
Para que a perfuração não abale a estrutura física do edifício, a empresa contratada deve realizar uma boa análise do terreno antes de perfurá-lo. O solo de calcário pode ceder, se retirada água de cavernas subterrâneas.
Em algumas áreas de Recife (PE) é proibida a perfuração. Em virtude da utilização excessiva das águas subterrâneas, há risco de esgotamento e salinização.
Em São Paulo (SP), já foram relatadas contaminações de lençóis freáticos, causadas por vazamentos em postos de gasolinas próximos. O controle constante da qualidade da água é necessário.

Providências importantes

No Estado de São Paulo, para fazer a perfuração, é preciso uma autorização (chamada outorga) do DAEE, Departamento de Águas e Energia Elétrica. Em geral, a empresa contratada se encarrega de obter esta autorização. É bom garantir que este item conste do contrato.
Assim que o poço começa a funcionar, ele precisa ser registrado no DAEE, para ter licença de uso. Esta parte é de responsabilidade do contratante.
Contatos com o DAEE: www.daee.sp.gov.br
Confira se a empresa contratada está cadastrada no CREA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia), e se contribui para a Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas). A consulta pode ser feita pelo telefone (11) 3104-6412 ou no site www.abas.org.
Certifique-se da existência de assistência técnica.
Comprove se a empresa tem seguro de responsabilidade civil geral, para o caso de acidentes.
Verifique se o seguro do prédio vai necessitar mudanças.
Informe-se sobre a estrutura técnico-operacional e se está equipada com gerador próprio para testes de vazão.
Observe se há uma frota de caminhões-pipa. São eles que fornecem a água necessária para os trabalhos de execução do poço.

Fonte: sindiconet